Nº 120 - O perfume que escolhes quando ninguém te vê
Há perfumes que escolhemos para sair e há outros que escolhemos quando ficamos. Não são os mesmos. Os que usamos para os outros são muitas vezes mais definidos, mais reconhecíveis. Contam algo sobre nós, claro — mas também sobre como queremos ser percebidos. Depois existe outra categoria, mais silenciosa: os perfumes que escolhemos quando estamos sozinhos.
Os que colocas quando não tens ninguém para ver. Quando trabalhas em casa, quando lês, quando o dia decorre sem compromissos. E são os mais sinceros. Não têm de convencer, não têm de durar muito, não têm de deixar uma estela. Só têm de te acompanhar. E é precisamente aqui que o perfume muda de função. Já não é um sinal distintivo, torna-se um espaço.
Uma fragrância leve, talvez ligeiramente cítrica ou com uma nota verde, pode ajudar-te a começar o dia com mais clareza. Não invade, mas abre. É como uma janela mental. A meio do dia, quando a concentração diminui, basta pouco para mudar de ritmo. Uma vaporização numa cortina, numa poltrona, no ar. Algo que não se percebe de imediato, mas que coloca o espaço novamente em movimento.
E depois há as horas lentas, aquelas em que não acontece nada de especial. É aí que muitas vezes escolhemos os perfumes mais verdadeiros: musgos leves, madeiras subtis, notas limpas. Fragrâncias que não pedem atenção, mas criam uma presença. Como uma voz baixa numa sala vazia.
Um pequeno experimento? Tenta escolher uma fragrância só para ti, e usa-a sempre no mesmo momento do dia. Não para sair, não para ver alguém. Só para estar. Depois de alguns dias, tornar-se-á um sinal. Uma forma de entrar nesse espaço.
Talvez seja precisamente aí que se entende verdadeiramente um perfume. Não quando é notado, mas quando permanece. Mesmo quando não há ninguém para o sentir.
Escrito por Adele
