Nº 119 - Já não é inverno, ainda não é verão: o perfume das estações intermédias

As estações intermédias não têm um perfume preciso, e talvez seja exatamente esse o seu segredo. Não cheiram a algo em particular, mas a muitas coisas ao mesmo tempo: um casaco ainda pesado pousado numa cadeira, uma janela entreaberta, um raio de sol que chega onde antes não chegava. São feitas de pequenos contrastes, contínuos. E o nariz, mais do que ninguém, dá por isso.

No inverno escolhemos perfumes que protegem. No verão, perfumes que libertam. Mas neste tempo suspenso, o que procuramos — mesmo sem o saber — é equilíbrio. As fragrâncias das estações intermédias nunca são nítidas. Não são declarações, mas nuances. Têm sempre algo a mais e algo a menos. Uma frescura que nunca é fria. Um calor que nunca é pleno. São esses perfumes que não se fazem notar de imediato, mas que depois de alguns minutos se tornam familiares.

Queres descobrir connosco uma forma interessante de os escolher? Não comeces pela fragrância, mas por uma sensação. Pergunta a ti mesmo: hoje quero sentir-me mais leve ou mais recolhido? E depois procura uma nota que mantenha as duas coisas juntas. Um cítrico que não seja demasiado brilhante. Uma madeira que não seja demasiado profunda. Uma flor que não seja demasiado doce.

As estações intermédias são também o momento perfeito para mudar hábitos. Não é preciso substituir tudo: basta deslocar. Um difusor que no inverno estava na sala pode encontrar uma nova vida perto de uma janela. Uma fragrância usada apenas à noite pode entrar na manhã. O perfume, neste período, funciona melhor quando se move.

E depois há algo que só acontece agora: o ar já não retém tudo, mas também ainda não o dispersa completamente. O perfume fica, mas não fica igual. Modifica-se ao longo do dia, muda com a luz, com o tempo, com você. É menos controlável, mais vivo. E é talvez o único momento do ano em que vale a pena deixá-lo fazer.

Porque as estações intermédias não pedem precisão. Pedem abertura. E o perfume também, neste espaço incerto, deixa de ser uma escolha definitiva.

Torna-se algo que acompanha, que se adapta, que evolui.

Tal como nós, neste momento do ano.




Escrito por Adele

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