Nº 124 - Porque é que os perfumes nos parecem diferentes em casa dos outros?

Acontece muitas vezes: entras numa casa e a primeira coisa que pensas é: "aqui cheira muito bem." Depois voltas para a tua e, mesmo usando a mesma fragrância, parece que já não a percebes da mesma forma.

Mas a razão não é o perfume, somos nós.

O olfato é um sentido inteligente: ao fim de algum tempo, habitua-se aos cheiros que considera familiares. É um mecanismo natural. A fragrância que sentes intensamente nos primeiros dias deixa progressivamente de te parecer evidente, precisamente porque o cérebro a reconhece como parte do ambiente. É por isso que os perfumes das casas dos outros nos impressionam sempre mais: são novos. Inesperados. Ainda não registados na nossa memória.

No entanto, isto não significa que o teu perfume não se sinta. Pelo contrário, muitas vezes tornou-se tão coerente com a tua casa que já faz parte dela.

Uma forma simples de reativar a perceção? Mudar ligeiramente algo. Não é necessário substituir completamente a fragrância. Às vezes basta mover o difusor para outro ponto da divisão, ou acrescentar uma nota complementar: uma vela mais cítrica junto a um difusor amadeirado, por exemplo.

Alternar os momentos também ajuda. Se usas sempre o mesmo perfume durante todo o dia, acabarás inevitavelmente por percebê-lo menos. Uma boa ideia pode ser usar fragrâncias diferentes entre a manhã e a noite: algo mais fresco durante o dia e notas mais suaves nas horas lentas.

Há ainda outro detalhe interessante: os tecidos retêm o perfume de forma diferente do ar. Uma cortina, uma manta, uma almofada ligeiramente vaporizadas podem restituir a fragrância de forma intermitente, cada vez que se movem. E é precisamente esta alternância que torna o perfume mais vivo.

Tenta deixar uma divisão sem perfume durante alguns dias. Quando reintroduzires a fragrância, voltarás a percebê-la com muito mais intensidade.

Talvez seja isto o que acontece também com as coisas belas: quando nos habituamos demasiado, deixamos realmente de as notar. Mas basta mudar de perspetiva — ou simplesmente voltar a entrar numa divisão — para nos lembrarmos que sempre estiveram lá.

Porque o perfume mais bonito não é o que invade. É o que acompanha. O que se descobre devagar, enquanto se vive a casa.



Escrito por Adele

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